Educação clássica e cristã não é romantismo: por que eu preciso de comunidade, tradição e rigor?
Eu amo ensinar. Amo ver os olhos das crianças brilhando quando um texto se abre, quando uma ideia faz sentido e o mundo parece ficar mais claro. Mas, quanto mais ensino, mais percebo que educar filhos, em casa ou na escola, não é uma tarefa para solitários. Não basta boa vontade, nem mesmo muito amor. É preciso humildade para admitir limites, sabedoria para buscar auxílio e coragem para permanecer na tradição quando a estética da novidade promete atalhos.
Este ano, ao assumir uma turma do quinto ano, deparei-me com um limite que me ensinou muito. Minha formação primeira é Letras Português, sou pedagoga, especialista em ECC, professora de Português e, hoje, futura coordenadora.
Quando cheguei à parte de Matemática do currículo, vi com honestidade que, dentro das exigências de uma Educação Cristã Clássica séria, eu não estava suficientemente preparada para entregar o melhor. Fiz o que parecia óbvio e, ao mesmo tempo, difícil para o nosso orgulho: troquei aulas com uma colega formada em Matemática. Eu assumi o Português da turma dela; ela, a Matemática da minha turma. O resultado foi imediato: a qualidade das aulas cresceu, as crianças ganharam e eu aprendi a alegria de servir com os meus dons enquanto recebo, com gratidão, os dons dos outros. Educação é corpo, não façanha individual.
Essa experiência me fez olhar com mais cuidado para discursos pedagógicos sedutores que circulam entre nós. Escuto, com frequência, promessas de “educação viva”, “sem rigidez”, “centrada na criança”, que, na prática, acabam substituindo o trabalho lento e orgânico da tradição por um romantismo performático.
Não falo aqui para atacar pessoas, falo como professora e mãe, ciente do peso da responsabilidade diante de Deus.
Quando alguém improvisa um “currículo” a partir de princípios soltos, sem domínio profundo de conteúdos e sem a sustentação de uma comunidade de mestres, o que se entrega às famílias não é leveza, é fragilidade. O jargão pode ser belo, as fotos no feed podem ser inspiradoras, mas as crianças precisam de ferramentas reais: gramática, lógica, retórica, matemática, música, história, ciências, as grandes obras. E isso exige método, sequência, memória e disciplina.
Os antigos sabiam. Quintiliano insistia que a formação do orador nasce de uma ascese paciente, não de lampejos. Cícero lembrava que a eloquência só floresce quando a mente é trabalhada nas etapas apropriadas. Agostinho, ao pensar a educação cristã, afirmava que a alma precisa ser ordenada: amor e disciplina andam juntos. Nada disso é hostilidade à beleza, pelo contrário, é a única base onde a beleza não vira capricho. A tradição clássica não é uma coleção de técnicas, é uma herança viva que nos educa em virtudes intelectuais: atenção, memória, julgamento, prudência.
Os contemporâneos que reacenderam a Educação Cristã Clássica têm dito a mesma coisa com outras palavras. Dorothy Sayers resgatou o trivium como um mapa realista do desenvolvimento da mente. Kevin Clark e Ravi Jain mostram, em The Liberal Arts Tradition, que as artes liberais são justamente as artes da liberdade, e liberdade sem treino é ilusão. Douglas Wilson, ao narrar a história da Logos School, insiste em algo quase banal e, por isso, fácil de esquecer: currículo claro, professores formados, comunidade coesa, prestação de contas.
O que sustenta a excelência não é o carisma do educador isolado, mas um ecossistema de verdade, bondade e beleza sustentado pela igreja, pela família e por mestres que se reconhecem devedores da tradição.
Talvez parte do apelo de certas propostas esteja no cansaço real que muitos pais sentem com a escola moderna. Eu entendo. Como mãe, esposa e professora, também luto por tempo. Mesmo com diarista uma vez por semana, mesmo com nossos filhos numa boa escola, é difícil manter o discipulado familiar regular e acompanhar tudo como gostaríamos. Essa é exatamente a razão pela qual eu não confio em atalhos. Se eu, profissional, com equipe, com colegas e supervisão, precisei repartir cargas para servir melhor, como poderia acreditar que uma mãe, sozinha, entre panelas e roupas para lavar, conseguirá oferecer excelência simultânea em todas as áreas do saber?
Quando transformamos boa vontade em “método” e a solidão em “liberdade”, acabamos vendendo para os pais o que eles desejam ouvir e tirando dos filhos o que eles mais precisam receber.
Há também um equívoco recorrente sobre memorização. Ouço que memorizar seria “mecânico” e “não cristão”, como se a mente fosse naturalmente suficiente para reter o essencial sem treino. No entanto, a própria vida desmente essa tese: todos sabemos completar jingles publicitários de cor “três hambúrgueres, alface…” sem esforço algum. Se a propaganda grava, é porque a memória existe e pode (e deve) ser ordenada a fins mais altos. Memória não é vilã, é alicerce. Quem ama o Senhor com toda a mente precisa de exercícios que sustentem esse amor na hora do estudo, da leitura, do cálculo, do canto, do argumento. A memória serve à inteligência como musculatura serve ao caminhar.
Eu sei que é tentador acreditar que “amor basta”. Mas o amor verdadeiro recusa-se a entregar menos do que o melhor possível. Na educação cristã, isso significa dizer não ao improviso marketeado e dizer sim ao trabalho silencioso da tradição, com seus instrumentos humildes: um currículo testado, um professor que sabe mais do que ensina, uma comunidade que corrige e encoraja, um pai e uma mãe que não carregam sozinhos o que Deus designou para o corpo inteiro.
É mais custoso, menos instagramável e, quase sempre, mais devagar. Mas é assim que a árvore cria raízes, e só árvores enraizadas resistem às primeiras ventanias da vida adulta.
Escrevo isto com respeito por quem, de boa fé, tem tentado educar os próprios filhos em casa. O homeschooling pode ser uma bênção. Justamente por isso, ele merece ser protegido do romantismo que o enfraquece. Não precisamos diminuir nenhum pensador para afirmar a Educação Cristã Clássica, nem idolatrar a ECC a ponto de esquecer que crianças são pessoas, não projetos. O que precisamos é abandonar a fantasia da autossuficiência e abraçar a realidade do corpo de Cristo: “na multidão de conselheiros há segurança”.
Eu preciso de outros mestres; meus alunos precisam de mais do que eu posso dar, minhas limitações não são vergonha, são convite à comunhão.
Se eu pudesse deixar um encorajamento final a outras mães e professoras, seria este: não caminhe sozinha. Procure currículos enraizados, submeta-se a uma comunidade que lhe diga a verdade, aceite trocar, pedir ajuda, aprender de novo. E, quando o orgulho gritar, lembre-se de que educar não é performar sucesso: é, dia após dia, formar almas para amar a Deus com toda a mente. Esse é o trabalho mais belo do mundo. É também o mais difícil. E é por isso que ele nunca foi designado para uma pessoa só.



Maravilhoso!